20 de março de 2009

Preto, Pobre e Bixa


Por volta de 1902, o Rio de Janeiro era uma cidade deplorável. Ruelas sujas e a falta de saneamento básico fazem da cidade um foco de epidemias.
Então, Rodrigues Alves assume a presidência do Brasil com o intuito de renovar o Rio de Janeiro. Porém, nos moldes das cidades européias, para que fosse bem vista pelos estrangeiros. Por este motivo, cortiços são derrubados, moradores de toda a região são desalojados à força e toda a grande massa fica exclusa de sua própria terra, sem ter para onde ir, simplesmente para que se tivesse uma “boa imagem”.

O Rio foi então reconstruído e os negros que lá moravam, foram proibidos de entrar nesta “nova cidade”. Por este motivo, a exclusão a partir de agora era evidente e grande parte da população é marginalizada. Esta massa começa a se aglomerar na Lapa, e foi neste mesmo lugar que o samba de raiz começa a surgir, retratando a dor, a vida e toda uma história de cada um destes indivíduos. No entanto, esta Lapa passa a ter a fama da obscuridade e de onde não se poderia viver, justamente por causa do preconceito que crescia cada vez mais.

João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, foi a figura ímpar desta exclusão. Freqüentador da Lapa, foi uma pessoa que retratava a vida noturna, a malandragem e também a marginalidade da época.

O filme Madame Satã, interpretado por Lázaro Ramos, deixa bem claro o sentimento vivido naquela época. O longa se passa, em sua grande parte, à noite e possui uma iluminação baixa e chorosa, justamente para que tenhamos a mesma sensação de isolação vivida naquele momento.


Madame Satã, negro, pobre e homossexual, tinha uma vida conturbada, mas a levava ironicamente e era muito extrovertido. Como o típico negro latino, se livrava com malandragem diante de uma situação complicada.
Podemos comparar este “gingado” com a cultura do disfarce, utilizada pelos negros africanos, onde ao fingir que estavam dançando, lutavam com seus inimigos através da capoeira, despistando e fugindo dos feudais. João Francisco ocupava duas personalidades para se livrar da opressão e se dizia filho de Xangô. Ele sofria... Mas cantava. À noite, brilhava. Sua fuga da realidade era através da fantasia. A dualidade fazia parte do seu ser e dentro do carnaval ele encontrava a bagunça, o avesso, o mundo libertário.

Esta essência não pôde ser deixada de lado. Por nenhum de nós. Afinal, somos descendentes africanos e não fugimos de um problema, pois aprendemos a nos camuflar. Sabemos lidar com os dois lados de uma moeda. Um exemplo é quando falamos coisas tristes, sorrindo. Fica clara esta característica...ela não é indígena, não é americana; ela é africana.

Depois da noite vem o dia.
Depois da festa, vem a oração.
Depois do carnaval, vem a quarta de cinzas.


Nota 1: O título do texto apresentado é apenas para retratar a forma como Madame Satã era tratado e designado na época, dito de modo preconceituoso para a opção sexual e a etnia de um indivíduo.


Nota 2: O buraco é muito mais em baixo. As favelas constituem em um problema colonial, visto que, pessoas que foram exclusas de sua própria terra há mais de cem anos, por puro preconceito, não sabiam para onde ir; logo, foram se aglomerando em morros. Hoje não só a população e a pobreza crescem, como a marginalidade e, por incrível que pareça, o preconceito.

8 de março de 2009

Surrealismo

Falar em Surrealismo, Salvador Dali e Companhia, é um pouco polemico... Mas essa escola é absurdamente interessante. Afinal, sua intenção é totalmente diferente do impressionismo. Sua intenção é incomodar!

A Revolução Soviética trouxe inúmeros conflitos político-sociais por conta do poder dominante e condições de vida extremamente desfavoráveis ao desenvolvimento social. Então, em 1917, as famílias burguesas caem e os operários tomam o poder. A desordem e o caos eram o desejo de revolução. É neste instante em que a anarquia se mostra presente e o inferno finalmente se manifesta por completo, como na verdade sempre foi. O mundo agora parecia virar do avesso.

Tantas incertezas despertaram o desejo de fragmentação da mente humana para entendermos certos porquês. Os estudos psicanalíticos de Sigmund Freud foram elaborados para tentar desvendar o que a nossa mente na verdade é. E talvez entender o que realmente estava se passando naquele determinado instante.

Toda uma sociedade queria “rasgar” aquela falsa ordem que os burgueses criaram (cubismo), mas começamos a nos infiltrar em uma parte muito mais obscura, a ponto de querer entender o que nosso próprio semelhante pensa, para assim, incomodá-lo através de seu subconsciente. Principalmente por meio da arte. Estava então se desenvolvendo o Surrealismo.

A repressão foi a base deste movimento, pois é em si um ato não-consciente. Segundo Freud, as pessoas têm alguns pensamentos que não conseguem aceitar ou que são muito dolorosos, então, elas preferem rejeitá-los. Porém, por mais que pensemos que estes foram expulsos de nossas mentes, isto não ocorre. De fato, eles acabam ficando armazenados no nosso inconciente.
Existem coisas que preferimos não pensar pois nos incomodam, mas sempre acabamos sonhando com elas, pois na verdade, ficam guardadas. Estes desejos incômodos que todos nós temos, são retratadas no surrealismo. Por isto nos tocam com tanta profundidade e estranheza.






A Girafa a Arder, Salvador Dali

Um representante notável do movimento foi Salvador Dali, que em certa ocasião, passou a ler e se aprofundar nas obras freudianas, interpretando-as em suas artes e criando um mundo de fantasias, delírios e um universo fantástico – mas um tanto quanto desconfortável. Dali assim o fez, pois percebia o caos em que se encontra o mundo; desta forma, suas obras podem chocar e causar subversão dos sentidos, já que naquele momento, tudo parecia estar de pernas para o ar.
Estas artes parecem grandes paranóias, recusando toda a lógica da nossa vida comum.

A estética do surrealismo constituía em cores fortes, tons avermelhados e sua grande parte, em uma ambientação com sombras. O desenho sempre é perfeito, mas nos impressiona, pois é algo que nosso senso comum não espera. Justamente por ser a parte oculta do nosso ser.
Podemos observar também uma forte influência do sexo, já que a sexualidade em si está diretamente ligada aos processos primitivos da nossa mente.

Jovem Virgem, Salvador Dalí

A sexualidade é trabalhada como uma pulsão no nosso inconsiente. Muitas vezes, podemos ter um desejo reprimido, mas por ser algo primário ou não aceito pela sociedade, nosso superego nos impede de realizá-lo. Logo, quando o surrealismo o retrata, a nossa reação pode ser inesperada.

Desta forma, compreendemos que o movimento surreal tinha a intenção de ir por um caminho totalmente contra o que a humanidade vai, pois não dá atenção ao supérfulo e sim, ao profundo. Ao que fica nas sombras.

Sua idéia pode ser semelhante a do cubismo, no entanto, se os cubistas focavam apenas a destruição, os surrealistas mostravam a destruição e a criação de uma nova linha de pensamento, organizada através de um caminho totalmente oposto.

Desta maneira, o Surrealismo atingiu uma outra realidade que estava escondida no nosso inconsciente. As ilusões, o incômodo, a tristeza e melancolia, foram influências fundamentais para a demonstração de como na verdade somos conturbados em nosso interior. Cobrimos com uma máscara, pois não conseguimos aceitar...e quando nos deparamos com ela, nossa reação é indescritível.