20 de julho de 2009

“Basta saber o que é a bondade para ser bom.”

- SÓCRATES

A base da suposição de Sócrates acerca da ética é algo simples, chegando até a ser “religioso”– basta saber o que é bondade para que se seja bom. Mas o que é bom para mim, é bom para outro indivíduo? Pode parecer ingênuo no mundo de hoje, mas naquela época, essa era uma noção perfeitamente coerente com o pensamento coletivo grego.

Sócrates é o fundador da ciência como conceito, logo, foi o primeiro a tratar a moral como ciência, partindo do ponto de vista ético – a ação racional, de acordo com a sociedade. Assim, antes dele não teria havido uma reflexão mais aprofundada sobre o homem social e ética, mesmo levando em consideração o relativismo, dos sofistas. Apenas para abrir um parêntese, os sofistas foram os primeiros filósofos gregos e sua teoria relativista implica no questionamento da verdade absoluta; ou seja, existem apenas verdades relativas a um determinado tempo e lugar. Com isso, Sócrates é considerado o Pai da Ética, pois estendeu o comportamento moral ao todo.

Embora desde as épocas mais remotas já existissem diferenças perfeitas entre o bem comum e o bem individual, estas eram tão enraizadas na mente grega que talvez ninguém pudesse ainda identificá-las para reflexão. Nós nascemos com isso. Tanto, que sua dissociação só foi possível na época da decadência grega, quando viu-se necessário desfragmentar a mente humana de um modo geral em busca de alguma teoria. Por mais que as visões de Sócrates pareçam “utópicas”, seu conceito era o que o povo de Atena precisava na época. O caminho para sua reflexão era uma resposta à hipocrisia da sociedade que, naquele momento, afirmava que os sofistas sabiam apenas reafirmar antigos valores. Sócrates defende interesses individuais e comunitários em uma única identidade, como um só caminho para a felicidade.

Se basta saber o que é bom para ser bom, porque então existem pensamentos éticos? Os sofistas consideravam que a ética é mera invenção social e, justamente pelo fato de não sabermos o que realmente é a bondade, vivemos com base nela. A noção do bem e outros valores, se perdem em meio à vaidade e hipocrisia dominante que cegam o homem e, ao invés de lutar por estes objetivos reais, confunde-se na névoa das convenções sociais.

Sócrates defende valores antigos de sociedade, mas para isso, precisa se contrapor a alguns dos pensamentos dos próprios sofistas. Isto se dá, pois alguns desses ancestrais negavam uma realidade única, universal, sendo que a bondade é única, partindo do indivíduo. Ele pensa na ética como uma força transformadora do indivíduo, trazendo a felicidade a ambos, Indivíduo e Sociedade.

Com relação à Justiça, os sofistas dizem que ela é a convenção estabelecida pelo mais forte para dominar o mais fraco. Sócrates não concorda... Mas também não discorda. O filósofo defende que os sofistas não estão errados porque a descrição deles corresponde ao estado de coisas na época, mas a lei é necessária deste modo naquele tempo e espaço, de acordo com hábitos e costumes.

O problema é que Sócrates pensava na liberdade, não em leis. A ética, para ele é, sobretudo uma questão de definição de termos e, quiçá, épocas também. Mas... Por que não? Se pensarmos em como chegar à algum lugar através de valores assim, não teremos uma resposta absoluta. Sócrates nunca dá resposta, e sim, questionamentos. Ele nos mostra que as nossas certezas são apenas ilusões. Pensamos que fora ingênuo ao escrever tal consenso sobre ética, quando na verdade, quer despertar dentro de cada um de nós, nossas próprias repostas. Quer conseguir nos arrancar nossa certeza para mergulharmos cada vez mais fundo por respostas. Pode ser que esteja certo e tudo seja questão de tempo...

Enfim, a maior garantia de Sócrates e o senso ético é a auto-construção da verdade para nos tornarmos mais sábios, seres humanos melhores. A ausência de respostas do filósofo faz parte de seu método, já que a verdade um dia se dissolverá, com o tempo. Afinal, um mestre não indica o caminho, apenas adverte sobre as trilhas mais arriscadas. Será que Platão e Aristóteles o entenderam realmente?

8 de julho de 2009

Realidade Nua e Crua.




Hoje assisti novamente o filme “Quanto vale ou é por Quilo” de Sérgio Bianchi, depois de seis anos. E é assim: A realidade como ela é e ponto. O filme é cru em alguns termos, mas como deve ser na soberania capitalista. Bolas, você acha que realmente somos iguais? Afinal, "O que vale é ter liberdade para consumir, essa é a verdadeira funcionalidade da democracia" – citação ditada pelo ator Lázaro Ramos em cena do filme.

Há quem diga que cineastas, escritores ou até alguns poetas brasileiros querem mais é chocar e vender através de conceitos sensacionalistas, mas creio que isto também já está se tornando um tipo de observação banal, não é mesmo? Chega de rótulos que tanto restringem a visão dos fatos, das coisas como são; à não ser que se tenha o desejo de continuar deste modo... Enfim, partindo deste ponto, creio que Bianchi demonstra que somente com este tipo de linguagem “agressiva” é possível compreender sobre a realidade de disparidades em que vivemos. Certas sensações ou constrangimentos são necessários para tirar algumas pessoas do mundo encantado em que vivem.

Bianchi faz observações muito importantes e defende que para termos uma visão crítica do que acontece aqui e agora é imprescindível levar o passado em conta. O filme deixa claro que nosso passado escravista ainda existe e nossa democracia atual não sofreu muitas diferenças desde a época colonial. Será que evoluímos mesmo ou está tudo estagnado? Haviam desigualdades econômicas, sociais e de direitos no país. E hoje? O incessante elo parece que não irá se desfazer tão cedo.

Entre fotos antigas de capitães do mato e famílias coloniais, e imagens atuais, vemos apenas a diferença do tempo. Igualam-se a violência, o sistema do mais forte, a noção de que pessoas podiam ser propriedade de outras e a lógica de lucro escravista no Brasil. Porque aqui, a prisão pode ser economicamente rentável e geradora de emprego, a denúncia é um negócio dentro de acordos em seqüestros e a miséria forma ONGs que desenvolvem a solidariedade como empresa. Nesta “democracia” essas organizações da sociedade civil ganha em prol de demandas não atendidas pelo Estado, ou seja, funcionando como empresa, incorporando discursos, verbas, reputação e, enfim, o lucro. Responsabilidade social é marketing dentro da nova indústria que gerencia a miséria e os miseráveis. Mas talvez se a estrutura fosse outra, não seria necessário recorrer à essas alternativas para resolver responsabilidades do governo.

É sim, medo, porque se pensa no conforto; mudar pra quê? Porque até a crítica é proveniente da desgraça e uma solução é a chave. Não vou dar minha sugestão justamente por isso. Além do mais, minha opinião já deve estar clara. O filme de Bianchi termina com dois finais, duas opções, pois é isso que deve acontecer: novos desfechos para a nossa História. Para a estrutura do nosso país.