19 de setembro de 2009

Facetas

Eu quero desmontar toda a mulher que as pessoas constroem a meu respeito. Desfragmentar, criar, brincar com as peças...como um jogo de quebra cabeças. Talvez porque eu queira tudo com extrema intensidade, quero errar pra depois
construir o imaginário das pessoas, de forma fantasiosa. Hoje é tudo tão simples...Temos uma indústria, a beleza serena, tudo côr de rosa. A graça burlesca é justamente a satirização, a "farsa" para esta nossa comédia de costumes.

Não quero um vácuo emocional, espiritual; não quero perder a esperança, falando de forma mais poética. Por isto, se o culto ao corpo existe, vamos então satirizar este invólucro, tornando-o o próprio sentido da vida e nos divertindo com isso? Com o fim do ideal da busca do equilíbrio entre corpo e mente, nos restou apenas o corpo. Somos sim, burlescos, caricatos, cômicos, facetos; e nossa beleza sabe disto.

O que nós vemos é o que sentimos, mas não necessariamente o que somos.

6 de setembro de 2009

Os Sonetos, de William Shekespeare



Pincelando e moldando as figuras em forma de palavras, Shakespeare jogou um véu negro e contemporâneo sobre sonetos. Com isso, ele pôde costurar esse tecido e gerar harmonia em obra, tanto textual, quanto conceitual. De forma natural, assim como a noite engana o dia, a tristeza trai a alegria, a velhice trai a juventude e o tempo, a beleza...

Essa é uma obra prima de palavras que podem ser comparadas a chocolates meio amargos, que não deixam de ser deliciosos misturados ao seu fundo acre. Com uma forte insinuação sexual, o dramaturgo apenas delineia o corriqueiro, porém de forma artística, descrevendo o trivial da forma com que todos nós deveríamos ver. Shakespeare traduz os sonetos europeus amorosos através da poesia da vida.

Rasgando padrões poéticos estritamente seguidos por anos a fio, ele fala de males humanos que não costumavam andar junto com o amor, além de parodiar a paixão, caçoar a beleza, cantar o ser humano e tingir insinuantes notas pornográficas nessa simples vida carnal em que vivemos. Enfim, Os Sonetos Completos de Shakespeare é uma narrativa poética de 1609, A Lover's Complaint.


Soneto 23


Como no palco o ator que é imperfeito

Faz mal o seu papel só por temor,

Ou quem, por ter repleto de ódio o peito

Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido

O rito mais solene da paixão;

E o meu amor eu vejo enfraquecido,

Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência

Arauto mudo do que diz meu peito,

Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.

Saiba ler o que escreve o amor calado:

Ouvir com os olhos é do amor o fado.