17 de outubro de 2011

RELATO: EXPERIÊNCIA COM LSD (ILHA DOS GATOS, BOIÇUCANGA)


22/12/2010 - SOLSTÍCIO DE VERÃO

Em uma pequena ilhota deserta, estavam apenas duas pessoas. Estas pessoas eram eu e um amigo e irmão espiritual responsável pela condução e orientação da abertura de um portal em minha vida. Em meio a rochas, árvores, areia e cercados por água, escutávamos apenas o que a natureza queria nos dizer. Conforme o dia e a noite foram se equilibrando alguns sinais começaram a surgir. Como estávamos no solstício de verão, o dia em que o Sol está mais perto da Terra, o astro estava no ápice do seu poder. Começou a ser possível enxergar cada prisma de luz dos raios, a medida que a estrela ficava maior, mais próxima de nós. O Sol crescia e mostrava cada detalhe de sua exuberante luz, ao mesmo tempo em que tingia todas as árvores e montanhas de dourado. Tudo brilhava, até que uma parte do céu começou a ficar escura. Sutilmente a Lua começou a aparecer e, quando virei para o horizonte, consegui ver o céu em totalidade. Enorme, sem fim. O chão aonde eu estava ficou minúsculo, e eu, ainda mais. Naquele pequeno pedaço de terra, não via NADA, a não ser os deuses. Sol e Lua agora dividiam o mesmo céu. Parecia um quadro com vida, onde eu estava dentro. A divisão era perfeita: parte era dourada, parte azul escuro. Um era grande e cheio de calor, a outra, brilhante, branca e delicada. Aquela visão foi se dissolvendo e eu fui percebendo a chegada silenciosa da escura mãe. Neste momento, consegui ver o último raio solar, como se estivesse em câmera lenta; foi no instante em que o Sol se pôs completamente, como se estivesse entrado no oceano. Quando, inesperadamente, escutei uma voz sussurrar no âmbito da minha existência a seguinte frase: “Brisa da Noite...”. Era um sussurro mesmo, mas escutei aquilo muito “alto”. Não escutei com os ouvidos, mas com a alma. E exatamente nesta hora, o manto da noite cobriu toda a Terra. Sentia a presenta da escuridão e, impressionantemente, a brisa. Ela bateu nos meus cabelos e em meu rosto, como se realmente um lençol fosse jogado sobre a atmosfera.

Maravilhada, comecei a caminhar pela ilha deserta. Não havia luz alguma, mas eu enxergava tudo plenamente. As luzes das estrelas e da lua faz com que seja possível enxergar a totalidade, diferente das pequenas lâmpadas das cidades, que nos fazem enxergar só a proximidade e deixando-nos cegos pro resto do mundo. A paz predominava. O barulho das ondas batendo nas pedras e encostas me faziam refletir a cada segundo sobre a existência. Meus olhos presenciavam estrelas, a deusa Lua da noite, o mar escuro, gigantesco e profundamente negro, misterioso, refletindo a prata lunar; a areia da praia era tão branca que chegava a brilhar com a luz da noite, além das árvores altas, em verde escuro, que contrastavam com o azul profundo da atmosfera. Foi então que comecei a perguntar pra mim mesma: EXISTIR? O que é tudo isso?! Quanta beleza! Que criação perfeita, meu Deus! Sou capaz de estudar e desvendar como respiro, como o mar se move, os astros orbitam... mas não sou capaz NUNCA de explicar a beleza da existência!! O que é EXISTIR?? Neste momento, me deitei no meio da ilha, fechei os olhos e senti meu coração se tomar com uma sensação de amor puro. Entrei em um estado de êxtase, onde tudo o que conheci nessa vida se apagou, todos os sentimentos terrestres desapareceram para dar lugar a m sentimento purificado que acredito ser a essência mesma de nosso “ser imaterial”, do nosso espírito. Neste momento, deixei de existir. Presenciei um infinito, sem tempo, sem limite de espaço, sem corpo. Eu era TUDO. Flutuava pelo universo, sem corpo; olhava a tudo sem olhos. Não tinha nada de mim, mas existia tudo. Porque as infinitas coisas do espaço sempre terão uma parte de mim.

Então, você me pergunta: Mas, como você consegue contar isso se deixou de existir? Aí é que está a prova mais concreta da existência da alma, da inteligência além de tudo. Se eu, a Roberta não existia (e qualquer outro corpo, outro ser humano), quem presenciou a existência universal? A consciência, a essência espírita. Nada do que você imagina. Simplesmente tudo. Lembro-me de ter presenciado, sentido e visualizado o espaço como um cérebro sem dimensões definidas, onda tudo funcionava através de fios dourados. Eu ESTAVA lá. Talvez seja por isto que a clarividência seja um atributo da alma, pois é uma característica independente de todas as partes do corpo humano. Ela traz a possibilidade de vermos por toda a parte, não apenas onde os olhos focariam, mas num todo, independente da distância, até onde seja possível para a alma de um determinado ser chegar. Não vemos as coisas como uma câmera que foca, mas algo muito maior, como uma mistura de sentidos. Isto porque me senti presente em todo o lugar que possa existir no espaço. Isto se torna ainda mais óbvio já que meu corpo parecia privado de todas os sentimentos e sensações, até o momento que meu corpo reviveu. Passados alguns meses desta experiência, fiquei abismada ao ler no “Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec que, no estado do êxtase espiritual, o aniquilamento do corpo é quase completo, não havendo mais que a vida orgânica, quando a existência inteligente se vai. É possível sentir que a alma não se prende ao corpo, senão por um fio tênue que, um pequeno esforço a mais o faria romper pra sempre.

Só sei que eu vi a eternidade. O tempo não passava, mas depois percebi que tudo o que vi não demorou mais que um segundo, no mundo terreno. Me foi revelado o que eu estava perguntando a Deus e hoje sei, definitivamente, em essência, o que é o espírito. Talvez minha capacidade enquanto encarnada não seja suficiente para descrever (e não é) – mas posso transpassar ao me próximo o sentimento que mais aproxima de sua definição. Tudo porque a alma é éter e avançada. Não precisa de tantos instrumentos arcaicos para se comunicar. O espírito não tem necessidade de que a informação que ele quer transmitir seja articulada, como fazemos ao falar e ao escrever. A mensagem vem pura e direta, pois a consciência sente e a advinha, decifrando-a através do pensamento. Por isso, acredito que a melhor maneira de passar o que senti a vocês é através do meu sentimento. De algo mais puro em essência, que vocês não consigam pegar.

Como voltei? Repentinamente, a dimensão na qual me encontrava se afunilou e eu me senti sendo sugada para dentro do meu corpo. Senti o foco de vida ser retomado quando meu coração disparou uma única vez, bem forte. Fez um “TUM!” e voltei a respirar. Percebi que nós só existimos verdadeiramente num todo, pois na realidade, trabalhamos para a harmonia deste todo. Obviamente não somos Deus, mas somos sua criação. Como os neurônios de um cérebro, que trabalham para o andamento perfeito de todo o cosmos. Isto é EXISTIR. É muito além daqui! É em TODO O LUGAR QUE VOCÊ PODE CHEGAR.

Vejo que experiências como o êxtase, o sonambulismo e as “visões de segundo grau” são fenômenos que estão integrados na natureza e que sempre existiram. O sono é um mecanismo natural que nos faz “morrer” todos os dias. Fecha-se os olhos do corpo para abrir os olhos da alma. O subconsciente armazena informações e reproduz lugares que não conhecemos nesta vida; nossa consciência simplesmente os visualiza. E, como não conseguimos “pegar” a consciência, ela se torna o cérebro da alma. O corpo, a matéria palpável, descansa, enquanto o espírito, a matéria sutil, entra em atividade. Contudo, existem ferramentas para desenvolver a inteligência espiritual, como a ayahuasca e os cogumelos que contêm psilocibina. Isto porque, estas criações da natureza, estimulam a chamada “Glândula Pineal” do cérebro, mesma glândula responsável por liberar o hormônio do sonho. Ou seja: é como se estimulássemos nosso cérebro para “sonharmos acordados”. Neste caso, os olhos do corpo e da alma ficam abertos ao mesmo tempo, sendo possível ter experiências extra-corporais de maneira consciente.

A história nos mostra que os fenômenos do subconsciente foram reconhecidos e até mesmo explorados desde os tempos mais remotos, como o caso da sintetização do esporão de centeio (fungo/cogumelo encontrado em algumas espécies de trigo), que deu origem ao LSD em questão. A questão é que nos fenômenos do subconsciente encontram-se a explicação de uma série de fatos que até então são considerados “místicos”. Os preconceitos religiosos, políticos e sociais impedem deles serem pesquisados e os fazem cair na classe “sobrenatural”.

“[...] No êxtase, ela penetra em um mundo desconhecido, naquele dos espíritos etéreos, com os quais ela entra em comunicação sem poder ultrapassar certos limites que não poderia transpor sem romper totalmente os laços que a ligam ao corpo. Um estado resplandecente, todo novo, a circunda; harmonias desconhecidas sobre a terra a arrebatam, um bem estar indefinido a penetra: ela usufrui por antecipação da beatitude celeste e pode-se dizer que põe um pé sobre o limiar da eternidade.” – Pág. 163, O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.

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