21 de fevereiro de 2017

Apropriação Cultural

Em 2010 estava entrando num processo de conexão profundo comigo mesma e com o sentido da minha vida. Essa busca gerou frutos muito positivos, incluindo a grande revelação e o término do meu primeiro livro, dois anos depois. Nessa mesma época, decidi encravar minha certeza em meu cabelo e com isso, causar um impacto social (não como uma espécie de rebeldia, nem nada adolescente, mas como propósito). Pensava em disseminar reflexão. Digo com a mente plena do que eu estava apenas sentindo no momento.

Naquele instante, eu não via muitas pessoas de dreads. Não como hoje. Quero dizer, não era algo muito aceito. Sendo assim, uma série de pessoas me paravam nas ruas, algumas senhorinhas se benziam quando passavam por mim e, no transporte coletivo, alguns até puxavam meu cabelo pelo banco de trás. É engraçado lembrar! E era essa a intenção - quando acontecia isso ou quando havia qualquer tipo de abordagem direta, eu sempre pensava: o momento que precisava... Quando era algum amigo, também branco, que falava com reprovação - "Nossa, que mal gosto, por quê você fez isso? Seu cabelo era lindo!" - eu perguntava: "O que é mal gosto? E por qual motivo te incomoda tanto?". Fazia a pessoa compreender que o que mais a deixava resistente, não era o cabelo em si, mas o que ele representava (a cultura afrodescendente). Mesmo que ele negasse na primeira resposta, silenciava na segunda introdução das ideias, quando eu perguntava: "O que meu cabelo representa, pra você?".

Nos casos de religiosos e outros tipos mais conservadores, a indagação sempre partia do ponto moral. Que marginais possuiam esse tipo de "penteado" (segundo eles), entre outras coisas mais absurdas. Para questões assim, o argumento era sempre a interiorização: "Você possui valores de amor, paz e igualdade e está sendo mais preconceituoso que qualquer pessoa que você acaba de descrever. Não somos todos iguais, independente das nossas aparências? E como você pode me julgar por ela? Minha capacidade, meus sentimentos, minha história..."

Percebi que, com o tempo, esse tipo de abordagem foi diminuindo, com certeza pela popularização dos dreads. Participei de alguns atos com mulheres negras e saraus, já que sempre apoiei o movimento, inclusive como o das Cotas, em 2013. Entretanto, de um ano e meio para cá, mais ou menos, venho observando que uma quantidade relevante de negros vem olhando com uma certa desconfiança essa opção (e com total razão).

Neste ano, em específico, o tema "Apropriação Cultural" está borbulhando (pelo fato das redes sociais darem uma grande repercussão, ainda que rasa sobre o assunto, mas válida, como bem observado por um amigo meu). Houve o fato da moça que usava turbante e foi abordada, mas tinha câncer etc, etc (...) E isso gerou uma grande polêmica, inclusive com brancos justificando o "racismo inverso" por conta da pressão das negras sobre ela.

Primeiro ponto: não existe racismo inverso. O branco não sofre repressão social. Segundo ponto: o que estamos observando é a atitude de uma resistência, por muito tempo oprimida, que está em seu estado de explosão - mais que normal e digno. E que sabemos que tomará seu corpo, como toda explosão se torna chama, bem denifida. Precisamos entender esse momento.

Isso me ficou claro hoje, quando estava caminhando pela avenida e uma garota negra, de black power, me abordou e disse uma série de coisas do tipo: "bicha ridícula, horrível, não vê que não serve...", entre outras frases. Pensei sobre isso na mesma hora e simplesmente silenciei. Achei válido os xingamentos. Pensei comigo: Eles fazem parte dessa explosão e, além disso, isso nada mais é que um filtro (ainda que inconsciente) que estão fazendo para ver quem realmente está junto à sua causa. Apenas pense: Essa garota não me conhecia. E se eu realmente fosse uma patricinha imbecil, branquela, que fez o rastafari só porque é bonitinho e cai bem? No mínimo, iria ser de grande serventia essa "bronca". Eu iria parar e pensar: "Caralho, porque eu fiz esses dreads??". Isso iria gerar uma reflexão em mim e me forçar à entrar para sua caminhada, participar de debates, estar imersa na cultura negra. Tem muita gente apenas se apropriando de visual sim, sem luta nenhuma. E como é que eles/elas vão saber?

Então, caros amigos e amigas brancxs: Não temos o direito de nos sentir ofendidos, nem excluídos com qualquer tipo de "afronta", pois não estamos na parcela que realmente sofreu/sofre exclusão. Ou você dialoga junto com os negros e compreende esse momento vivenciado hoje ou se abstenha. Porque no meio social, você não vive a exclusão que o negro vive. Você não pode lutar por um espaço no espaço deles. Mas sim, lutar por um espaço maior para eles - dentro da sociadade. O seu rastafari deve servir pra isso.

Para resumir: o discurso de ódio nunca é lá muito benéfico, mas pode ser um chacoalhão. A natureza por si só funciona exatamente assim, até que a energia se afunile e tudo seja visto de maneira mais racional. A bronca? Você pode não merecer, mas sua cor deve. E se você está pronto pra assumir essa luta, aceita, compreenda, lute junto. No mais, é esperar que as consciências vão se abrindo. Querendo ou não, todos estamos dando alguma contribuição nisso.

8 de fevereiro de 2017

Amor do ponto de vista lógico

Eu continuo achando que Schopenhauer não era pessimista. Quando ele diz que "amor" é apenas um pretexto para o ser humano fornicar, ele não está dizendo que o amor não existe, necessariamente, mas que é o modo com que a nossa espécie interpreta o fato de se reproduzir. Nosso cérebro é mais complexo, então até o modo como vamos interpretar o ato, torna-se mais dialético. De acordo com o modos operandi da nossa inteligência. O raciocínio animal é mais simples, logo, eles não tendem a criar romances ou histórias, simplesmente fodem. Essa é a diferença: apenas o interpretativo. Amor é apenas uma palavra para definir o desejo inconsciente que todo o ser vivo tem de perpetuar a espécie.

2 de fevereiro de 2017

Precisamos falar sobre Borderline

O mundo do borderline parece normal, externamente. Conturbado, mas normal. Isso porque está numa linha tênue entre desequilíbrio e estabilidade. Porém, do contrário que a maioria pensa, existe um universo imenso de questionamentos que ninguém tem a obrigação de compreender - se para o próprio diagnosticado isso é um desafio.

Borderlines são pessoas sensíveis para além do que é considerado "média", por isso percebem muito rapidamente coisas e situações - em excesso. Por conta disso, aprendem rápido, tendo considerada sua inteligência auspiciosa, pelos médicos psiquiatras e outros cientistas da mente.

Em consequência disso, o quadro proporciona um comportamento resistente perante à sociedade. A conversa com um borderline normalmente é repleta de argumentos, onde o indivíduo sempre busca fundamentados de maior ou menor grau, de acordo com o nível da patologia. Pelos leigos, na maioria dos casos, a pessoa borderline é tida como teimosa, mimada ou prepotente. Contudo, existe uma diferença entre a personalidade comum, teimosa, da personalidade borderline: aquele que apresenta o quadro vivencia duas ou mais realidades, amplificando todo o tipo de ponto de vista, levando o debate à questões profundas e extremas, simplesmente por não aceitar uma única conclusão limite, que não seja passível de questionamentos. Percepção extra-sensorial, para os mais "místicos".

É por esta razão que o indivíduo borderline possui grande facilidade de compreender os mais diversos campos e pessoas, pois realmente entra nos universos propostos, porém isso deixa-os confusos entre as realidades - o que leva à medicina psiquiatra à compará-los, em leve grau, ao esquizofrênico. A diferença é que os dois (ou mais) mundos paralelos do esquizofrênico o impedem de viver em sociedade, pois o diagnosticado possui dificuldades de entender qual é o mundo real e qual o mundo imaginário, diferente do borderline, que consegue conviver com os dois. Contudo, por vezes, essas realidades paralelas vêm à tona de maneira muito intensa e pode haver confusão entre tempo e espaço, mas logo o indivíduo volta ao presente (como uma espécie de distração muito forte e, as vezes, um deja-vu).

Este quadro se desenvolve, na maioria brutal dos casos, logo na infância, por negligência ou problemas parentais psiquiátricos, que obriga o ser a tomar iniciativas muito cedo (formando um indivíduo altamente crítico). Agressões na família (tornando o indivíduo rebelde e resistente, desde muito pequeno) e comportamentos paternos de domínio, supressão e opressão, desenvolvem características plurais sobre definições de juízo (dúvida sobre sua sexualidade, sobre o que é ser normal na sociedade, o que é certo ou errado, experimentação de universos proibidos, como o uso de drogas e outros questionamentos e constatações).

É importante dialogarmos sobre o borderline, pois não se trata de uma doença mental irreversível, nem de um capricho. Este diagnosticado se esforça para entender os problemas, diferente de um ser meramente teimoso ou "chato". E neste seu esforço de entendimento, pode se sentir imerso demais, nos mostrando - ou ensinando - uma série de pontos de vista (...) mas tornando-se confuso com isso. E, então, quem irá ajudá-lo?

Arte: Neil Simone